Separação do trigo para pão, massa e biscoito chega a mais de 50% da safra do RS

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Enquanto a área de trigo encolhe no Rio Grande do Sul, com a previsãohistórica inferior a 700 mil hectares cultivados, ganha força a segregação - uma forma de valorizar o produto. A separação conforme as características vem ajudando a dar liquidez ao cereal, além de maior retorno financeiro aos agricultores. A medida, que há dois anos abrangia menos de 15% da safra, já representa mais da metade do volume colhido no Estado.

- A segregação só funciona quando começa na lavoura e termina no recebimento. É um trabalho conjunto, cada vez mais estimulado por cooperativas, cerealistas e sementeiras - destaca Altair Hommerding, coordenador técnico da Câmara Setorial do Trigo no Estado. 

O primeiro passo é a escolha das cultivares a serem semeadas. Em 2016, a câmara setorial classificou grupos de variedades com atributos semelhantes para atender demandas da indústria. 

- Conseguimos reduzir o número de cultivares no campo, priorizando as que têm maior aceitação pelos moinhos gaúchos - explica Hamilton Jardim, presidente da Comissão de Trigo da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

O retorno trazido pela segmentação ajudou a conter a queda da área semeada com o grão na propriedade da família Sella, em Carazinho, no norte do Estado. Neste safra, serão 130 hectares destinados à cultura. Há cinco anos, eram 300 hectares. 

Desde o ano passado, os irmãos Alécio e Ricardo Sella passaram a cultivar apenas cinco variedades - três de trigo pão, usados pela indústria de panificação, e duas de trigo melhorador, voltados a mercados mais exigentes.

- Dessa forma, temos a compra garantida. Em anos anteriores, sempre havia desgaste na hora da venda, ficávamos dependendo de leilões do governo - conta Alécio, que concluiu a semeadura na última quarta-feira.

A escolha das variedades foi orientada pela Sementes Ross, de Não-Me-Toque, onde o agricultor entregará a safra de inverno. A segregação na empresa, que atua como cerealista e sementeira, começou em caráter experimental em 2015 - com 20% do trigo. Em 2016, o percentual pulou para 50% e, no ano passado, a Ross restringiu o recebimento somente para trigo classificado.

- É uma maneira de tentar forçar o produtor a adotar a medida, valorizando o cereal no mercado e competindo com a qualidade argentina - explica Olmar Lanius, gestor de grãos da Sementes Ross.

O estímulo para o produtor segregar a safra vem da remuneração maior pelo produto vem da remuneração maior pelo produto - de 10% a 12% acima do mercado, detalha Lanius:

- Os moinhos pagam mais quando sabem exatamente o produto que estão recebendo.

As indústrias gaúchas industrializam cerca de 1,7 milhão de toneladas de trigo - das quais cerca de 70% são produzidas no Estado, segundo o Sindicato da Indústria do Trigo no Rio Grande do Sul (Sinditrigo). 

- Tem trigos e trigos, com características diferentes para pão, massas e biscoitos. O cenário ideal seria 100% da produção segregada - diz Diniz Furlan, presidente do Sinditrigo. 

As variedades de trigo forte, com w (força de glúten) acima de 250, são apropriadas para panificação. O trigo brando, com w inferior a 250, é usado em massas e biscoitos pela menor absorção de água.  A distinção das variedades é uma prática comum na Argentina e mais adiantada no Paraná - principal Estado produtor do cereal, na frente do Rio Grande do Sul. 

- É um caminho necessário para valorizar o cereal, dando maior liquidez a produtos que atendem às necessidades da indústria - conclui Furlan. 

Ganhos da classificação vão além do mercado

A maior liquidez e o preço superior do trigo não são as únicas vantagens da segregação da safra. Aos ganhos econômicos somam-se ainda vantagens agronômicas.

- Em anos de frustração de safra, as perdas nas lavouras podem ser menores nas áreas com variedades selecionadas - afirma Tiago De Pauli, agronômico da Biotrigo.

O técnico esclarece ainda que a segmentação não significa maior investimento, exigindo apenas zelo maior no controle da giberela, fungo que ataca as plantas em períodos úmidos e eleva o índice de micotoxina - impedindo o consumo do cereal por humanos e até animais. Os investimentos no trigo resultam ainda em ganhos indiretos para a lavoura de soja - plantada em cima da resteva do cereal.

- A rotação evita a erosão do solo e deixa residual importante para a cultura posterior, ajudando ainda a controlar as invasoras da soja - argumenta Claudio Doro, assistente técnico regional da Emater em Passo Fundo. 

A valorização do valor do grão nos últimos meses fez com que o órgão revisasse a projeção de área plantada no Estado, estimada agora em 668 mil hectares - redução de 3,35% em relação à safra passada. A queda inicial prevista era de 20%.

- O câmbio encareceu as importações e levou as indústrias a buscarem o produto no mercado interno, puxando o preço para cima - explica Doro. 

Farinha branqueadora é trunfo de cooperativa

Com cerca de 2 mil produtores de trigo associados, em 15 municípios da Região Noroeste, a Cooperativa Tritícola Mista Campo Novo (Cotricampo) conseguiu fazer com que a segregação fosse adotada em 100% da safra recebida. O estímulo veio após a construção de um novo moinho de farinha, ainda em 2012, com capacidade para beneficiar 1 milhão de sacas por ano. 

Desde então, a cooperativa passou a fomentar o plantio de um trigo branqueador, cerca de 20% da área, e sete variedades tipo pão, que somam os 80% restantes. O percentual é o mesmo da mistura feita entre farinhas de trigo clara e escura - alcançando a coloração buscada pela indústria. 

- A farinha branqueadora é o nosso grande trunfo. Com a mistura, conseguimos vender para 13 Estados brasileiros - conta Ricardo Corrêa Chassot, vice-presidente da Cotricampo, com sede no município de Campo Novo. 

Pelo trigo branqueador, a cooperativa consegue bonificar o agricultor em 15% a 20% a mais do que na variedade pão - que também alcança um bônus de 10% em relação ao mercado geral. Para diferenciar a safra entre trigo branqueador e pão, a Cotricampo precisou investir em moegas e armazéns separados. Além disso, fomentou a assistência técnica nas lavouras.

- Nosso controle no campo é muito rigoroso. A semente, por exemplo, deve ser comprada na cooperativa, para garantir o uso da variedade específica - explica Chassot.

O retorno mostra que o investimento valeu a pena. Além dos mercados alcançados pelo moinho, a cooperativa conseguiu manter a área cultivada com o grão pelos associados - cerca de 60 mil hectares.

- Aqui não tem desânimo em relação ao trigo. Só dependemos do tempo, o resto conseguimos controlar - finaliza o dirigente. 

Fonte: Gaúcha ZH

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