Derivados de trigo devem subir ainda mais

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Quem já tomou um susto com o preço da farinha de trigo e do pãozinho no mês passado pode ir preparando o coração - e o bolso. Com o atraso da colheita nas lavouras de trigo no país, os moinhos ainda estão processando o cereal importado, que está cada vez mais caro por causa do câmbio, dos preços internacionais e do valor do frete rodoviário. Embora as indústrias já tenham repassado parte da alta dos custos ao preço da farinha nos últimos dois meses, mais repasses aos consumidores finais e às indústrias de alimentação devem vir nos próximos dias.

Os moinhos de São Paulo avaliam que, para a produção entre maio e setembro, os custos cresceram 45%, mas o repasse desse aumento para a cadeia - indústrias de biscoitos e massas, além do varejo - chegou a no máximo 25%. "Falta ao menos mais 20% para repassar", estima Christian Saigh, presidente do Sindustrigo/SP.

A Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) também avalia que algum repasse ainda deve acontecer, mas evita fazer estimativa. "Da forma como está o custo, deve ter repasse. Quanto, depende de cada empresa e de sua estratégia de vendas e estoque", afirma Marcelo Vosnika, presidente do conselho da Abitrigo.

Essa fatura já começou a chegar aos consumidores em junho, quando o preço da farinha de trigo subiu 6,68%, bem acima do IPCA daquele mês (1,26%). Em julho, o produto voltou a subir mais que a inflação, assim como o pão francês e o macarrão. Em agosto, enquanto o IBGE registrou deflação na economia, o preço da farinha de trigo subiu 5,21%, acumulando alta de 15,73% no ano. O pãozinho, por sua vez, acumulou valorização de 5,46% entre janeiro e agosto, e o macarrão, 5,8%, ante uma inflação de 2,85% no mesmo período.

O aumento dos custos estimado pelo moinhos paulistas para esse período de cinco meses, de maio a setembro, é resultado em parte do reajuste do frete rodoviário, que havia subido 25% para a indústria do Estado até a semana passada, antes do reajuste de cerca de 5% anunciado na última quarta-feira pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT).

Outro fator de pressão sobre os custos da indústria é a valorização de cerca de 15% do trigo na bolsa de Chicago desde maio, diz Saigh. Os contratos futuros do cereal vêm subindo nos últimos meses por causa da quebra de safra na Rússia, maior exportador mundial de trigo. Segundo Vosnika, embora o país não forneça ao Brasil, a redução da oferta russa abre mercados que podem ser ocupados pela Argentina, nosso maior fornecedor.

A alta do dólar, que disparou desde maio e está oscilando próximo aos maiores patamares em três anos, aperta ainda mais o torniquete para a indústria.

Os gastos com a aquisição de trigo representam uma parcela relevante do custo total dos moinhos, em torno de 80%, segundo o presidente do Sindustrigo.

Os moinhos estão pagando R$ 1.200 pela tonelada do cereal, enquanto o preço médio nessa mesma época no ano passado estava em torno dos R$ 610 a tonelada, segundo Jonathan Pinheiro, analista da Safras & Mercado.

Para dificultar, a colheita da safra no Paraná, principal Estado produtor, está atrasada, uma vez que o clima seco desde o outono postergou o plantio e o desenvolvimento das lavouras. Normalmente, a colheita começa na segunda metade de agosto, mas no Paraná só começou no início de setembro. Até o dia 3, apenas 2% da área plantada no Estado havia sido colhida, contra 16% um ano antes, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria Estadual de Agricultura.

A demora para começar a colheita pegou muitos moinhos desprevenidos, já que a maioria costuma trabalhar com estoques baixos nesta época do ano à espera do produto nacional "fresquinho". Para garantir a moagem, as indústrias tiveram que recorrer às importações justamente em um momento em que o dólar bate os maiores valores desde 2015.

 

Fonte: Valor

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