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Mesmo com avanço da colheita, preço do trigo permanece firme no Brasil

Se existe um conceito mais antigo na economia do que a relação entre oferta e demanda, ninguém conhece. Mas no mercado de trigo a velha máxima está sendo ignorada neste momento. Apesar de a colheita no Brasil ter avançado e chegado à metade do volume previsto para a safra 2019/20, os preços do cereal não caíram. Em média, continuam impassíveis em torno de R$ 1,3 mil a toneladas no Paraná e em US$ 1,2 mil no Rio Grande do Sul.


Assim, a tendência é que o valor das farinhas suba no país nos próximos meses e tenha reflexos em seus derivados. Edson Csipai, gerente nacional de originação de trigo da Bunge, uma das maiores indústrias do segmento no país - afirmou que o valor médio do trigo subiu 65% desde janeiro, enquanto a farinha teve reajuste de 18%. “O trigo perfaz 75% do custo da produção de farinhas. Isso coloca uma pressão forte nos preços daqui para o fim do ano e preocupa a indústria”, disse ele no 5º Encontro da Cadeia Produtiva do Trigo, evento virtual promovido pelo Sindustrigo-SP.


Para Csipai, três fatores explicam o comportamento atípico dos preços. Em primeiro lugar, disse, muitos produtores estão capitalizados por causa de ótimos resultados com a vendas outros grãos, como a soja; em segundo lugar, porque o mercado internacional está pujante, com preços firmes; e, finalmente, o câmbio tem sido favorável aos exportadores, com efeitos sobre a paridade doméstica.


“O Rio Grande do Sul já vendeu 950 mil toneladas de trigo ao exterior, de uma safra prevista de 2,7 milhões de toneladas. Isso ajuda a manter os preços firmes”, disse. Segundo ele, com esse volume comprometido, os primeiros carregamentos do Estado vão direto para o porto, limitando a oferta interna.


Os produtores do Paraná têm uma demanda mais firme dentro do país por ter contar com uma indústria moageira maior, mas também garantem preço com a possibilidade de optarem por exportar.



Não bastassem essas questões, a safra gaúcha deverá ser menor que o inicialmente previsto, diante da seca que atinge importantes áreas produtoras. Se agora estão previstas 2,7 milhões de toneladas, há dois meses as previsões inidicavam 3,3 milhões.



A seca preocupa ainda mais quando se olha para a Argentina, principal origem do trigo importado pelo Brasil. “Córdoba não vê chuva há três meses. Outras regiões sofrem menos, mas a produtividade será pequena”, afirmou. A Argentina colheu 22,5 milhões de toneladas na safra passada e, em 2020/21 – próxima temporada que poderá atender o Brasil – a previsão não passa de 17,5 milhões.



“Se tudo der certo, os argentinos terão 10 milhões de toneladas para exportações e o Brasil deve absorver 6 milhões. Mas, novamente, com a demanda internacional firme, eles não reduzirão seus preços”, afirmou Csipai.



O executivo também lembrou que o produtor argentino está retendo seu trigo como nunca se viu. “Com o câmbio como está, a cada quilo vendido hoje eles têm menos pesos amanhã”. Segundo ele, o câmbio oficial da argentina indicava em março que cada dólar valia 62 pesos. Agora, esse câmbio está em 77 pesos (desvalorização de 24% da moeda argentina). Mas o câmbio paralelo indicava 80 pesos para cada dólar em março e agora indica 170 pesos (desvalorização de 113%).


“A diferença entre os câmbios era de 29% e agora é de 120%. O produtor tem medo de vender. Quer ter ativo que valha na mão e vai segurar seu trigo. Além disso, eles ficaram desgostos porque o governo argentino reduziu o imposto de exportação de soja, mas não de trigo”.



Por fim, para além da Argentina, os preços internacionais do trigo devem se manter firmes devido a várias indicações de seca em produtores como Rússia, Ucrânia, Canadá, EUA e União Europeia. 


Fonte: Valor Econômico


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