Há quase 3 anos atrás escrevemos o artigo "Cadeia do trigo: Elos separados ou uma corrente única?" , que falava na falta de conciliação de interesses como base da ausência na eficiência das políticas públicas e da eficiência do setor de trigo. De lá para cá muita coisa mudou, e mesmo assim, diante de mais quedas na área plantada e descontentamento por parte dos produtores, ontem foi realizada em Brasília uma audiência pública sobre o tema: "Debate de políticas de comercialização do trigo - safra 2017 - e as dificuldades do setor".
E lá estavam em Brasília os elos da cadeia discutindo seus entraves novamente, ao final todos com o sentimento de dever cumprido, com melhoras significativas nos últimos anos. Porém, a reflexão que fica é a seguinte: O trigo nacional tem solução?
IDENTIFICANDO PROBLEMAS, DEFININDO PRIORIDADES
Com a presença de representantes dos PRODUTORES (Faep - Federação dos Agricultores do Estado do Paraná e Farsul - Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul), representantes dos CEREALISTAS (Acebra - Associação Brasileira dos Cerealistas e Ocepar - Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), dos MOINHOS DE TRIGO (Ocepar e Abitrigo - Associação Brasileira das Indústrias de Trigo), técnicos de MINISTÉRIOS (MAPA - Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e Ministério das Relações Exteriores) e POLÍTICOS (Deputados Luiz Carlos Heinze - PP-RS e Sérgio Souza - PMDB-PR) , foram identificados diversos entraves e necessidades à cadeia do trigo, como por exemplo as seguintes:
-O alto custo de produção do trigo nacional,
-a necessidade de maior segurança aos produtores por parte de menor custo e maior abrangência do seguro agrícola,
-maior rapidez no timing de aplicação dos mecanismos de garantia dos preços mínimos,
-menor burocratização no pagamento da subvenção via Pepro,
-a necessidade de melhora na capacidade de armazenagem, visando a segregação do trigo,
-a tentativa de sensibilização quanto à melhoria da competitividade do trigo nacional perante o importado do MERCOSUL em preços (via taxação ou vias fitossanitárias),
-redução no custo de transporte de cabotagem, etc, etc
Não vamos entrar aqui no mérito do quão corretas ou absurdas são algumas das solicitações. O fato é que os entraves estão identificados e a qualidade da discussão é muito superior em relação ao período no qual os pedidos se resumiam a isenção de TEC, aumento de preços mínimos e mexer no transporte de cabotagem (algo que não teria grande efeito diante da baixa qualidade anterior do trigo nacional).
TODOS ESTÃO CERTOS, CADA QUAL COM SUA RAZÃO
Mas ao assistir o material disponível da reunião e conversar com alguns dos presentes ficou uma impressão: Cada setor acima citado está fazendo o certo, está com sua razão! Mas então afinal porque a cultura do trigo não está agradando aos produtores e segue abaixo do seu potencial de uso e exploração?
Exemplificamos abaixo a contribuição e a razão de cada um dos presentes, começando pelo GOVERNO: O Ministério de Relações Exteriores indica que está garantindo o livre comércio ao não taxar importações de dentro do Mercosul (evitando retaliações às exportações de outros setores da economia), mas também atua protegendo o mercado interno e Mercosul via imposição da TEC ao trigo extrabloco.
O MAPA implantou a nova classificação do trigo, aproximando as exigências de qualidade dos moinhos à realidade dos produtores. Esta melhor qualidade é remunerada por preços mínimos bastante diferenciados nos eventos de subvenção ao escoamento do trigo. Estes eventos vem ofertando ano após ano a subvenção de 1,0 milhão de toneladas de trigo para exportação (via PEP e Pepro, nem sempre arrematadas na totalidade). Também parou de interferir de forma baixista no mercado (via venda de estoques). E tem na burocracia uma proteção contra eventuais fraudes, que inclusive já foram investigadas em anos anteriores (PEP de trigo em 2011 chegou a ser cancelado).
Os PRODUTORES, em virtude de seu esforço e da sua aproximação com EMPRESAS MELHORADORAS DE TRIGO (que não estavam representadas) e dos moinhos melhoraram enormemente a qualidade do trigo produzido, com ganhos notórios também de produtividade. Como citamos acima, antigamente a melhoria no custo de cabotagem ao Nordeste não faria sentido, já que os moinhos daquela região não tinham costume e não confiavam na qualidade do trigo nacional, algo revertido neste momento após sucessivos anos de PEP e Pepro. De exportador de trigo para ração, o Brasil passou a exportar via PEP e Pepro também trigos com teor de proteína compatíveis com a moagem (11,0 - 11,5% de proteína).
Como dissemos acima, os MOINHOS se aproximaram dos produtores, seja via relação direta com a indicação de plantio e intenção de compra de determinadas cultivares, ou pela instalação de estruturas de recebimento direto dos produtores, ou ainda pela verticalização da operação em cooperativas. Houve uma modernização do setor, com diversas ampliações de capacidade de moagem, investimento em certificações de processos na fabricação de farinhas e uso de tecnologia de ponta na armazenagem e na moagem do trigo, aumentando o potencial de demanda.
Os cerealistas já atuam em conjunto com alguns moinhos na segregação do trigo produzido pelo produtor. Há a consciência da necessidade de segregação neste setor, como forma de atender bem os seus clientes (moinhos), embora isso exija investimento em maior capacidade de armazenagem, mas os avanços também ocorreram, até pela oferta de produtos não presentes na classificação do trigo, como o trigo branqueador, segregado nas cerealistas.
Os POLÍTICOS presentes abriram espaço à discussão no Congresso, foram os chamadores para ouvir as partes, cumprindo sua função de agir conciliando os interesses.
CADEIA DO TRIGO NÃO SE RESTRINGE A MOINHOS, PRODUTORES, CEREALISTAS E GOVERNO
Mas se todos tem razão e avançaram nos seus propósitos individuais, como ainda há queda de área e descontentamento com remuneração da atividade? Abandonamos o trigo nacional então? Não há competitividade? Não, não abandonemos tudo ainda. Nas discussões de ontem faltou um elo da cadeia com certeza (Indústria), se forçarmos um pouco dois (consumidores), e com mais três seria o ideal (profissionais liberais, pesquisadores e universidades).
O elo essencial que faltou ontem na discussão de soluções da comercialização do trigo foi a ponta compradora de farinhas, afinal o produtor planta, entrega na cerealista, o moinho compra o trigo classificado e limpo (alguns pulam esta etapa), mói, vende a farinha com as exigências e especificações das INDÚSTRIAS, que por sua vez atendem os anseios dos CONSUMIDORES, não podendo excluí-los da discussão.
As INDÚSTRIAS DE MASSAS, BISCOITOS E PÃES INDUSTRIAIS são hoje representadas em seus interesses por um órgão único em nível nacional a atuante Abimapi. O acréscimo da contribuição das indústrias pode e deve ser muito importante ao produtor de trigo brasileiro, mais do que muitos imaginam. Dois exemplos reais, práticos e consolidados de como isso já ocorreu e que caso fossem seguidos poderiam ocorrer com ainda mais frequência:
1) A empresa maior compradora de farinhas de massas do mercado brasileiro adequou suas especificações de farinhas à oferta de trigo nacional. Para aqueles que não entendem de classificação de farinhas, a farinha mais exigente em força de glúten e falling number é a farinha de macarrão e não a farinha de panificação, que por sua vez deve ser mais equilibrada (fica claro ao observar relação p/l dos pães). Esta indústria citada exigia farinha de massa seca com teor de cinzas em torno de 0,50% e cor em torno de 93 na escala Minolta. Hoje recebe farinhas com até 0,60% de cinzas, e cor com 92,5 na escala Minolta.
O que isso quer dizer? Hoje praticamente não se necessita trigo importado para produzir esta farinha. Com isso, a indústria ganha em oferta, já que na maior parte dos anos todos os moinhos do interior produzem esta especificação a partir do trigo nacional, competindo entre si em preços para fornecer a esta grande indústria. A indústria ganhou em oferta também devido ao fato de que quanto mais clara a farinha menor sua extração (menos farinha clara é produzida a partir de uma tonelada de trigo), passando a extração média de 20-25% para 30 até 35% por tonelada moída. Com este choque de disponibilidade, a farinha de macarrão antes chamada de especial (também devido ao preço) tem hoje os preços mais aviltados para os moinhos (menor margem).
Nesta especificação mais abrangente deste grande player, o preço por tonelada da farinha de massa chega a ser quase R$ 200/ton abaixo do que custaria na especificação antiga, uma economia enorme e que dá margem para mexer nos processos da indústria e não perder a qualidade do seu produto final (o macarrão). Demandando assim mais trigo nacional na mescla (quando ele for competitivo), retirando parte daquele mercado cativo ao trigo importado, sem impor barreiras tarifárias ou fitossanitárias aos países vizinhos).
2) Em curso recente que participamos sobre Qualidade de Trigo e de Farinhas de trigo, participaram também profissionais atuantes em INDÚSTRIAS de alimentos nos setores da compra e no controle de qualidade de farinhas de trigo (laboratório).
Após o final do curso, praticamente todos reportaram que não conheciam todos os parâmetros abordados, e alguns que estavam comprando a farinha baseada em parâmetros restritos das especificações (fichas técnicas), muito mais restritivas do que o seu produto final exigiria. Seguem aqui mais dois exemplos reais para defender esta ideia: a) uma indústria que comprava farinha especial para um produto que exigia absorção de água alta e nenhum crescimento de massa (poderia comprar farinha comum, até R$ 150/ton mais barata na época) e b) um outro comprador que exigia um W de 300 na sua aquisição de farinha de panificação, mas que por diversas vezes tinha problema de excesso de crescimento em seus pães e rompimento de pestana, exigindo "enfraquecer" a massa.
Para se ter uma ideia, relato desta semana de vendedor paulista de farinhas indicou que uma farinha panificável produzida apenas a partir de trigo nacional ou com pequena mescla de trigo importado tem preço até R$ 120/ton mais baixo do que uma farinha panificável de trigo importado, também permitindo margens de economia suficientes para mexer em processos de fabricação do pão, e assim ajudar na demanda por parte do produtor.
Os exemplos acima mostram redução real de custos como forma de convencimento da INDÚSTRIA em adaptar processos e receitas para receber farinhas com trigo nacional. Com substituição possível em se alterando ingredientes, com uso de aditivos. Isso mostra a exigência de maior conhecimento na venda (po parte de vendedores e representantes dos MOINHOS) e na compra das farinhas de trigo ( compradores das INDÚSTRIAS). Além de uma maior capacitação de técnicos de laboratório de qualidade de ambos os elos da cadeia (moinhos e indústrias de alimentos), assim como os técnicos de alimentos (Profissionais de P&D), que ao adaptarem seu processo produtivo às farinhas disponíveis, trazem lucros às suas empresas, podendo ainda melhorar a demanda pelo trigo nacional.
A comercialização da safra atual mostra bem isso, já que na maior parte do tempo não tivemos o trigo importado mais barato do que o nacional nas regiões produtoras, e ainda assim tivemos recorde de importações (acima de 7 milhões de toneladas). Explicado por alguma demanda que ainda são tradicionalmente atendidas por farinhas com mesclas de trigo importado (farinhas para panetones, farinhas para massas frescas, massas de pastel, etc e claro pela demanda dos moinhos do Norte e Nordeste).
Outro ponto em que a INDÚSTRIA de alimentos já atua, via Abimapi e Simabesp é com a tentativa de abertura de mercados para as massas, biscoitos e pães produzidos no Brasil via exportação. Se imaginarmos os incentivos dados às indústrias para exportações (isenções de PIS/COFINS, ICMS) e ainda que importantes mercados importadores de trigo compram grão com qualidade inferior à consumida no Brasil (Norte da África e Oriente Médio), estes estudos e work shops promovidos poderiam encontrar nichos para venda de produtos típicos daqueles países com exigência de farinhas mais simples, e assim fomentar também um aumento na demanda pelo trigo nacional.
Da parte dos CONSUMIDORES mudanças simples nos hábitos, como o consumo de produtos produzidos a partir de farinhas com maior teor de cinzas (mais escuras) ou integrais supririam as reclamações da cor escura de farinhas dos trigos mais fortes produzidos no Paraná (Oeste e Norte), sob apelo mercadológico de maior saudabilidade (maior teor de cinzas, mais vitaminas e minerais, além de fibras). A aceitação da presença de cores mais escuras em massas frescas (que afinal são servidas com molhos) também incrementaria a capacidade do trigo nacional em atender estes mercados.
OS PROFISSIONAIS LIBERAIS, aqueles de fora da cadeia, podem e devem contribuir. Dizemos respeito a conduzir a discussão com profissionais mais isentos, sem vínculos com qualquer elo da cadeia, na qual nós da AF News ( www.afnews.com.br) nos incluímos e nos colocamos a disposição, devido ao nosso conhecimento nos mercados de trigo em grãos, farinhas de trigo e farelo de trigo. Esta contribuição externa diminuiria principalmente a paixão nas discussões, que tiram um pouco da razão dos argumentos apresentados, além da necessidade de cada lado mostrar que não é o culpado dos problemas setoriais. No longo prazo, pesquisadores e professores deveriam ter acesso a linhas de pesquisa focadas no acúmulo de demanda interna do trigo nacional (Engenheiros de alimentos, Engenheiros de produção), assim como mais incentivo à pesquisa na produção e escolha de cultivares mais estáveis e adaptadas a cada região produtiva.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: PRECISA MELHORAR, MAS TEM JEITO!
Diante do acima exposto, engana-se aquele que observa o trigo como caso perdido no Brasil. A lucidez no apontamento dos problemas na reunião que assistimos nos dá a ideia de que a pergunta feita em nosso texto de 2014 acima citado "Cadeia do trigo: Elos separados ou uma corrente única?"está sendo respondida ano a ano e de uma forma bastante positiva. Os caminhos de excelência na qualidade da produção nacional, assim como a recente expansão na capacidade de moagem indicam e consolidam isso.
Turbulências virão em função do aumento da oferta argentina. Mas esta oferta tem e sempre terá na logística aos moinhos do interior e no câmbio (dólar instável) dois entraves permanentes para não tomar de vez a demanda brasileira, mesmo com sua grande competitividade.
Com foco principal nos custos de produção, com a expansão da produção para áreas mais ao Centro-Oeste (preços baixos do milho safrinha podem fomentar instalação de lavouras por lá este ano) e a interação crescente de TODOS os interessados que tem se observado, está sim se formando uma "corrente única" do trigo nacional.
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De Curitiba-PR, 9 anos de experiência no mercado de trigo e seus derivados. Grande abrangência no setor de derivados de trigo. Referência de preços em farelo de trigo e comportamento de mercado dos derivados. Assinantes em todo o MERCOSUL.
Gabriel Ferreira é Engenheiro Agrônomo, doutor em Produção Vegetal. Trabalha cobrindo mercados de trigo, farinhas de trigo e farelo de trigo há 6 anos.
Fonte: AF News