Agora é o trigo. Trigo com certificação de procedência, diploma gourmet e, pode apostar, preço de açafrão. Mas é óbvio que tem o lado bacana da história. Esse trigo está sendo produzido em algumas regiões da Itália e o objetivo dos que participam do projeto é, trocando em miúdos, produzir uma massa sustentável. Esse macarrão/pão/focaccia/pizza foi produzido com trigo zero quilômetro.
Velho papo do quintal. Valorizar o produtor local. O mundo civilizado tem feito isso. Aqui estamos tentando, mas ainda tem gente trazendo formigas da Amazônia.
Outros trabalham com as locais. Era o que fazia Ocílio Ferraz, membro da Academia Brasileira de Gastronomia e dono do restaurante Fazenda do Tropeiro, em Silveiras, no Vale do Paraíba. Ocílio era bom papo e bom de texto. Conversamos várias vezes por e-mail.
Ele fazia farofa de içá desde sempre. Foi cedo, aos 78 anos. Foi em dezembro do ano passado. Ocílio pensava deste jeito: usar o que tem por perto. E se não tem, a gente produz ou incentiva a produzir.
Tem sido assim com o tal trigo italiano. Já estão nas lojas as pastas com carimbo, avisando da certificação. Dizem que a qualidade é superior. Eu acredito.
Tive uma microfábrica de macarrão há anos e a qualidade da farinha fazia muita diferença no produto final. O problema: o preço. Já disse isso linhas acima e repito porque tem uma peça que não se encaixa.
Por aqui tentamos um projeto semelhante: chefs juntando-se a produtores pequenos para criar algo diferenciado, melhor. Alguns foram e estão em prateleiras de supermercados. Todavia, o preço é impraticável. Arroz vira luxo. Farinha de milho vira luxo. Fubá vira luxo.
Estranho, não é? Na ponta do lápis se explica, mas será que é viável a longo prazo? Não sei muito do mundo, mas aqui, se não tiver produção em escala, não se consegue preço. Sem preço a venda é pequena e lá na ponta, a do produtor, vai faltar arroz e feijão, acho eu.
Agora, será que não podemos pensar numa posição intermediária? Talvez a agricultura familiar possa ser a resposta.
Mudo de assunto e divido com você uma dúvida que tem me deixado bem curioso: não existe nenhum restaurante que sirva uma boa comida em Parelheiros, no Capão Redondo, na Brasilândia e demais regiões mais afastadas do Centro?
Nenhuma lanchonete fazendo um hambúrguer de qualidade, um sanduba de pernil, uma coxa-creme, um dog de qualidade? Será que fora do Centro só o Mocotó oferece boa comida?
Fuço na internet e descubro que Matheus Oliveira faz esse trabalho. Percorre bairros nem um pouco badalados, a não ser em páginas policiais, e recomenda. E também aviso que foi lançado o Prato Firmeza - Guia gastronômico das quebradas. Feito por uma moçada que ama comer, mas não tem grana.
Vai bombar? Assunto complexo porque na receita entram ingredientes indigestos: transporte, segurança, preconceito, medo. Falo mais sobre isso? Falo. Aguarde.
Fonte: Carta Capital