Na reta final do ano, os alimentos têm dado contribuição mais expressiva à desinflação e podem registrar queda no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de novembro, algo que não ocorre desde 2004. Esse movimento já foi verificado no Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) da Fundação Getulio Vargas (FGV), que mostrou deflação de 0,12% dos alimentos no mês passado.
Segundo economistas, uma conjunção de fatores é responsável pelo comportamento atípico desses preços numa época de sazonalidade elevada. O repasse da redução de commodities no atacado que são insumo para rações animais está chegando ao varejo ao mesmo tempo em que choques de oferta ocorridos ao longo do ano estão sendo devolvidos. Por isso, os alimentos não representam fonte de preocupação inflacionária no curto prazo, quadro contrário ao do fim de 2015 e início deste ano.
No comunicado que acompanhou a redução de 0,25 ponto na taxa Selic, para 13,75% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) informou que o comportamento recente da inflação foi mais favorável do que o previsto, em parte devido à queda de preços de alimentos, mas também com sinais de desinflação mais disseminada.
Divulgado ontem pela FGV, o IPC-S desacelerou de 0,24% para 0,17% entre a terceira e a última semana de novembro, com queda de 0,12% no grupo alimentação, apenas 0,01 ponto menor do que a deflação registrada no dado anterior. Segundo Paulo Picchetti, coordenador do indicador, a redução dos alimentos foi mais forte do que o previsto, o que explica o IPC-S ter subido menos do que sua estimativa para o período, de 0,30%. "A queda dos preços é generalizada", diz.
Os itens in natura lideraram a deflação de alimentos. Na passagem semanal, a queda do tomate saiu de 16,17% para 19,50%, movimento também observado na batata inglesa (-2,88% para -9,1%) e no feijão carioca (-14,95% para -16,05%). Outra ajuda veio do leite longa vida, que recuou 6,99%, ainda que com menos intensidade do que na medição anterior (-9,15%).
Os alimentos costumam subir no fim do ano, observa Picchetti, mas a trajetória deles foi afetada por choques de oferta que estão sendo devolvidos agora, principalmente a dos in natura. A retração das commodities no atacado tem efeito menor na queda de alimentação no varejo, avalia, dado que esses itens têm peso mais reduzido ao consumidor. Dentro do Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), também calculado pela FGV, os produtos agropecuários recuaram 1,5% em novembro, com queda de 2,4% da soja e de 3,9% do milho.
Para Fabio Romão, da LCA Consultores, as cotações mais comportadas dessas duas matérias-primas, que são insumos para rações animais, devem moderar a alta sazonal das carnes. Em seus cálculos, esse item aumentou 1,11% no IPCA de novembro. Em igual mês do ano passado, o conjunto de carnes subiu 1,44%. A desaceleração mais intensa nessa comparação, no entanto, é esperada para os alimentos in natura, que saltaram 9,68% em novembro de 2015 e, agora devem recuar 0,27%.
Na média, a expectativa da LCA é que a parte de alimentação e bebidas caia 0,18% no mês passado. Caso se confirme, esta será a primeira deflação do grupo no mês desde 2004, quando houve retração de 0,01%. Os alimentos estão surpreendendo favoravelmente neste fim de ano, comenta Romão, o que relaciona a uma conjunção de fatores.
Entre eles, o economista menciona a melhora do clima, com a transição do El Niño forte para o fenômeno La Niña em intensidade moderada, a queda de commodities no atacado e a devolução de choques de oferta que elevaram preços como o feijão e o leite longa vida. Por isso, diz, o IPCA de novembro pode ser uma surpresa positiva. Enquanto o consenso de mercado no boletim Focus trabalha com aumento de 0,33% para o índice, a LCA espera avanço de 0,25%.
Márcio Milan, da Tendências Consultoria, tem previsão mais alinhada à do mercado, com alta de 0,32% para o IPCA de novembro, mas pondera que existe espaço para que esse número fique um pouco menor, a depender do comportamento dos alimentos. Em suas estimativas, o grupo alimentação e bebidas subiu apenas 0,02% no mês passado. "Já esperávamos um quadro positivo para a inflação de alimentos no último trimestre e, mesmo assim, as expectativas foram superadas", diz Milan, que atribui a surpresa favorável principalmente aos alimentos comercializáveis.
Mesmo tendo revisto para cima as projeções para a taxa de câmbio no fim de 2016 e 2017, para R$ 3,27 e R$ 3,65, respectivamente, a Tendências não alterou seu cenário para a inflação. A consultoria prevê alta de 6,8% do IPCA neste ano, e de 4,8% no próximo, descompressão que deve ser ajudada pelos alimentos. A recomposição da oferta de commodities importantes que sofreram choques este ano vai se sobrepor ao efeito do câmbio, avalia o economista.
Segundo Picchetti, da FGV, a depreciação do câmbio é uma possível preocupação para 2017, mas, observando a trajetória dos bens comercializáveis, o repasse cambial tem sido mais fraco do que o ocorrido em outros períodos. "O 'pass-through' está muito inferior. Isso é outro sinal da recessão", diz, destacando também a inflação de serviços, que, na metodologia da FGV, desacelerou de 11,93% para 11,75% de outubro para novembro, no acumulado em 12 meses.
Para os economistas ouvidos, a sazonalidade típica de fim de ano deve fazer com que os alimentos voltem a acelerar em dezembro, mas ainda em patamar inferior ao que costuma ser registrado no último mês do ano. A LCA estima alta de 0,40% da parte de alimentação e bebidas este mês, mais de um ponto abaixo do observado em igual período de 2015 (1,5%).
Fonte: Valor Econômico