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Brasil pode precisar importar até 9 milhões de toneladas de trigo

A necessidade brasileira de trigo pode superar as projeções iniciais e chegar perto de 9 milhões de toneladas neste ciclo. A estimativa foi apresentada pelo presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Daniel Kümmel, durante o 11º Encontro da Cadeia Produtiva do Trigo de São Paulo, realizado na última quinta-feira (24), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A projeção representa uma revisão em relação aos 7,5 milhões de toneladas estimados inicialmente. Segundo Kümmel, a mudança está relacionada às perdas provocadas pelo clima na safra brasileira, cuja produção está estimada em 5,7 milhões de toneladas, além do volume que já estaria comprometido.


A Abitrigo avalia que o país precisará recorrer ao mercado externo acima do previsto para garantir o abastecimento da indústria. “Neste ciclo, o Brasil deverá recorrer ao mercado externo em um volume acima das expectativas inicialmente projetadas. Essa realidade é particularmente importante para São Paulo, que precisa do trigo produzido no estado pela qualidade, pela proximidade dos moinhos e pela importância da cadeia produtiva paulista”, afirmou Kümmel.

Para o presidente da Abitrigo, o trigo nacional e o importado cumprem funções complementares no abastecimento da indústria. Em São Paulo, a necessidade de compras externas também tende a crescer, com Argentina e Paraguai entre os fornecedores relevantes para o mercado brasileiro.


Produção paulista

O aumento da necessidade de importação ocorre justamente quando São Paulo discute como ampliar a produção própria de trigo. Durante o encontro, o presidente da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, Ruy Zanardi, destacou o potencial produtivo do estado e o tamanho do mercado consumidor. “São Paulo tem capacidade de produzir 800 mil toneladas e é o maior mercado consumidor do Brasil. Absorve tranquilamente o trigo nacional”, destacou.


Segundo Zanardi, a qualidade do trigo paulista também ganhou espaço nos últimos anos. Ele afirmou que o cereal produzido no estado alcançou, no ano passado, desempenho superior ao registrado em outros países do hemisfério Sul e em outros estados brasileiros.


A Embrapa Trigo também identificou espaço para expansão da cultura. Estudo apresentado no evento aponta potencial de acréscimo de até 300 mil toneladas por safra com a ocupação de 10% das áreas de milho safrinha consideradas aptas ao cultivo do cereal. O cálculo representa cerca de 89,8 mil hectares adicionais de trigo no estado.


Clima muda as contas

O desempenho da safra atual, porém, impõe uma restrição imediata à oferta. As condições climáticas de setembro reduziram o potencial produtivo e passaram a pesar nas projeções de abastecimento para os próximos meses.

O presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo), Max Piermartiri, afirmou que a cadeia precisa considerar simultaneamente a evolução da triticultura paulista e os efeitos do clima sobre a safra. “Temos, de um lado, uma evolução histórica da safra de trigo paulista, tanto em qualidade quanto em volume, e, de outro, os desafios impostos pelo clima do mês de setembro. Além disso, as eleições terão impacto importante no ambiente de negócios de 2027, especialmente na economia. É preciso olhar para todos esses fatores e se preparar para o que vem pela frente”, afirmou.


O planejamento do próximo ciclo também passa por questões tributárias. O secretário-executivo de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Diogenes Kassaoka, chamou atenção para as diferenças tributárias que afetam a cadeia e defendeu maior aproximação entre o setor produtivo e os órgãos estaduais. “São Paulo é um estado que consome muito  por isso precisamos melhorar cada vez mais a relação entre o setor e os órgãos estaduais. Estamos muito atentos à assimetria tributária que existe. Temos potencial, indústria e um mercado consumidor grande e qualificado. Precisamos olhar de uma forma diferente para as questões tributárias, que vêm representando desafios para a região”, enfatizou.


Economia no radar

As perspectivas econômicas e o ambiente político também entraram na programação do encontro. O primeiro painel reuniu o sócio do Instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, e o superintendente de pesquisa econômica do Itaú, Pedro Renault, com mediação do conselheiro do Moinho Paulista, João Carlos Veríssimo.


Hidalgo destacou a possibilidade de mudanças no cenário eleitoral até a votação e mencionou a influência de acontecimentos que podem ocorrer durante o processo.


Renault, por sua vez, relacionou as perspectivas para câmbio e outras variáveis econômicas às decisões de política econômica para 2027 e ao ambiente internacional. Entre os fatores externos citados estão os conflitos no Oriente Médio e seus possíveis efeitos sobre o abastecimento global.


O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, também mencionou as dificuldades enfrentadas pela economia brasileira e defendeu a articulação entre os diferentes segmentos para tratar de questões setoriais e nacionais.


Mercado internacional

Na etapa final do encontro, o mercado internacional e a safra argentina 2026/27 entraram em discussão. O painel reuniu Gabriel Gavarrino, da Câmara Arbitral da Bolsa de Cereais da Argentina, e Élcio Bento, da Safras & Mercado, com mediação do vice-presidente do Sindustrigo, Christian Mattar Saigh.


Bento avaliou que a safra brasileira ainda está em consolidação e que as perdas


provocadas pelo clima reduziram as perspectivas iniciais de produção. No mercado externo, a atenção está concentrada nos preços praticados nos Estados Unidos e na situação logística da Rússia. “É difícil pensar que uma estrutura logística portuária se recupere tão rapidamente, mas há um ponto de atenção: todo o trigo russo continua dentro do país. Ele não deixou de existir por causa das dificuldades de saída. Isso pode gerar estoques elevados, pressionar os preços na Rússia e, quando houver condições de exportação, esse trigo voltará ao mercado”, explicou.


Na Argentina, Gavarrino apresentou os efeitos da Resolução Conjunta 3/2026 sobre a comercialização do cereal. A norma estabelece o controle varietal do trigo em cargas de caminhão e permite identificar cultivares registradas após 5 de junho de 2026.


A mudança poderá permitir que compradores definam, por contrato, quais variedades serão aceitas nas cargas, criando maior especificidade na comercialização do cereal.


Ao tratar das perspectivas para a Argentina, Gavarrino projetou um volume disponível de 26,5 milhões de toneladas, considerando estoques de 4,5 milhões de toneladas e produção de 22 milhões de toneladas. Descontado o consumo interno estimado em 8 milhões de toneladas, o saldo exportável poderia superar 16 milhões de toneladas. “Se considerarmos uma carry on de 4,5 milhões de toneladas mais uma produção de 22 milhões de toneladas, chegamos a 26,5 milhões de toneladas para o mercado; se subtrairmos 8 milhões para uso interno, podemos esperar um saldo de exportação de mais de 16 milhões de toneladas”, destacou Gavarrino.


Fonte: O Presente Rural


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