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Chuva abala produção e qualidade do trigo no Brasil

O Brasil esperava colher uma safra recorde de trigo este ano e iniciar o tão desejado processo de autossuficiência. Mas faltou combinar com São Pedro. Da expectativa inicial de colheita de 10,5 milhões de toneladas, já está contabilizada uma perda de 30%, que pode ser até maior se as chuvas continuarem no Sul do Brasil.


O excesso de chuvas desde agosto inundou campos, fez os grãos caírem das hastes e ainda permitiu a proliferação de giberela e brusone, doenças causadas por fungos.


Tudo isso, além de reduzir a produção, está comprometendo a qualidade do cereal. “As primeiras amostras que temos recebido estão muito ruins, com doenças e perdas reais de qualidade, mas ainda é começo de safra”, diz Gerson Pretto, sócio do Moinho Estrela, do Grande do Sul.

O Estado bateu recorde de produção em 2022, com 5,7 milhões de toneladas. Neste ano, com o aumento da área de plantio em 3,2%, a expectativa inicial era que a colheita avançaria para cerca de 6 milhões de toneladas, mas após as chuvas, não deve colher nem 2,8 milhões de toneladas.


“Brincamos que nunca vimos nada tão bom no ano passado e nada tão ruim neste ano”, afirma Pretto. O que resta, diz, é acompanhar os preços dos mercados internacionais e o câmbio para comprar trigo de Argentina e Paraguai.


No Paraná, a projeção inicial era de colher 4,7 milhões de toneladas, mas o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, já reduziu-a para 3,6 milhões de toneladas, com possibilidade de novos cortes. O tempo quente e úmido criou o pior cenário possível para as lavouras do sul do Estado, onde o brusone imperou.


“Calculamos que para moagem só teremos 2,8 milhões de toneladas, porque parte grande está com qualidade ruim e cerca de 300 mil toneladas serão salvas para sementes”, afirma Daniel Kummel, presidente do Sindicato do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR) e CEO do Moinho Arapongas.


Apesar desse cenário nos dois Estados, que respondem por 85% da produção nacional, os preços do trigo estão caindo no país. Ontem, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) divulgou preço médio de R$ 1.289 mil por tonelada no Paraná, queda de 2,02% no acumulado do mês. No Rio Grande do Sul, a tonelada do trigo brando estava em R$ 1.227, queda de 1,28%.


Além da menor colheita, os estoques estão zerados. A razão para isso são os leilões de PEP e Pepro promovidos pelo governo federal, que visam levar o cereal para fora dos Estados produtores. Como os preços são estabelecidos antes da colheita, estavam acima da realidade de mercado, o que fez os produtores correrem para vender ao governo. O preço mínimo de garantia estava em R$ 87,77 a saca para o tipo 1 pão, enquanto o mercado pagava cerca de R$ 75.


“Se eu fosse produtor, também venderia tudo que tinha aos preços ofertados. Mas ficamos sem estoque regional da safra passada”, afirma Kummel. O que resta, diz, é rezar para o dólar cair e aliviar o custo da importação. “O fato é que os custos dos moinhos vão aumentar”, completou.


Ainda não é possível saber quando essa falta de trigo será sentida pelo consumidor. A maior parte dos moinhos gaúchos e paranaenses trabalha com estoques para dois a três meses.


O único ponto positivo para os moinhos é que a Argentina, principal fornecedor do Brasil, conseguiu recuperar sua safra, depois de fortes perdas em 2022. A Bolsa de Cereais de Buenos Aires prevê uma colheita de 14,7 milhões de toneladas em 2023/24, enquanto a Bolsa de Rosário projeta uma produção de 13,5 milhões de toneladas.


Com esses números, Luiz Pacheco, da T&F Consultoria, prevê uma oferta exportável entre 6,1 milhões e 7,3 milhões de toneladas. Para ele, os preços seguirão firmes. “Os argentinos sabem que não terão nenhuma concorrência diferente do Uruguai e Paraguai para fornecer aos moinhos do Sul do Brasil, pela proibição de desembarque de trigo russo do Rio de Janeiro para baixo e pelo frete mais elevado dos EUA, Canadá e Europa”, disse.


Diante disso, segundo Pacheco, a expectativa é que os preços do trigo argentino para o Sul do Brasil aumentem gradativamente a partir de janeiro, “provavelmente até os níveis equivalentes aos do trigo americano CIF nos portos do Sul do Brasil”.


Segundo Carlos Pouiller, diretor da Consultoria AZ Group, as condições na Argentina não são tão boas como as bolsas preveem, pois as lavouras enfrentaram períodos de estiagem. De qualquer forma, ele prevê um “comércio dinâmico entre os países, que manterá os preços sustentados”.


Fonte: Globo Rural


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