Cinco anos de estiagem estão transformando as primeiras chuvas mais graúdas da safra 2016/2017 em uma promessa de redenção. Mas a realidade é outra: a La Niña, fenômeno de resfriamento das águas do Oceano Pacífico que leva umidade a regiões brasileiras, ainda não será a "salvadora da pátria" desta vez, explica a pesquisadora do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cptec/Inpe), Renata Tedeschi, e "tudo indica que ela vai se dissipar em março próximo e será de baixa intensidade".
Bom para o Centro-Norte, onde o aumento das precipitações se fará sentir mais a partir do verão de 2017; ruim para a região Sul, que atravessou um período bastante úmido nos últimos anos, esclarece o meteorologista Celso Oliveira, da Somar.
Recorrendo à imagem de uma gangorra, Oliveira lembra que a influência do El Niño, que se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico Tropical, esteve muito forte nas safras passadas, provocando precipitações acima da média no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. Em contraposição, no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) só choveu em janeiro e no Mato Grosso a instalação da soja foi atrasada ou restrita a áreas menores. "Em 2015/2016, a cultura de oleaginosas acabou sendo muito prejudicada por conta disso", diz ele. "Este ano, as chuvas começaram mais cedo, a safra de soja está praticamente instalada no Estado e o Mato Grosso está mais adiantado do que nos últimos cinco anos".
O que pode acontecer agora, segundo o meteorologista, é um risco maior de o fungo conhecido como ferrugem asiática se dispersar pela lavoura, dando origem a plantas guaxas, que se disseminam a partir de grãos que caíram do caminhão durante o seu transporte por estrada e encontraram condições ideais às margens das rodovias para atingir a floração, mesmo durante a observância do vazio sanitário, quando é proibido plantar soja por questões de saúde pública. "O regime de fortes chuvas também deve tornar a colheita mais difícil no Mato Grosso", diz Oliveira. Em relação ao algodão e café nas regiões de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo, diz Oliveira: "São plantas que não gostam de muita água. Quando excessiva, ela prejudica a formação do grão e da pluma".
Para Expedito Ronald, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), embora a faixa de umidade que vem da Amazônia e corta todo o país até a Bahia esteja bem definida, a irregularidade meteorológica estará na ordem do dia. Contudo, afirma, "a safra 2016/2017 será a melhor da década, com previsão de boas chuvas até maio, pelo menos".
Segundo o Cptec/Inpe, por mais que chova, a bacia do rio São Francisco, na região Nordeste, continuará com vazão inferior à média histórica, persistindo a situação de déficit hidrológico. Do mesmo modo, devem persistir os efeitos decorrentes da seca prolongada na parte Norte do semiárido nordestino.
Na região Sul, as fortes chuvas ocorridas em outubro trouxeram alguns problemas para a cultura do trigo. Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina respondem por 90% da produção nacional de grãos. Daqui para frente, a previsão é de tempo seco, o que diminui o risco de doenças fúngicas e a germinação na pré-colheita. No entanto, dependendo da variedade plantada - de ciclo mais longo ou mais curto -, o produtor terá de tomar decisões técnicas diferentes das com que se acostumou nos últimos anos, esclarece o meteorologista da Somar.
Fonte: Valor Econômico