Os Estados Unidos acusaram a China de subsidiar ilegalmente os produtores de arroz, milho e trigo. Acrescentaram, com isso, a agricultura à crescente lista de temores de Washington com a superprodução e a distorção do mercado mundial promovidas pela China.
O início, ontem, de um novo processo junto à Organização Mundial de Comércio (OMC) ocorre num momento em que o presidente dos EUA, Barack Obama, está em campanha para conseguir que o Congresso ratifique, ainda neste ano, um amplo acordo comercial novo, a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), alardeando-o como elemento essencial da reação do país à ascensão econômica da China.
A acusação ocorre também em meio à preocupação mundial com o excesso de capacidade industrial da China e a uma acirrada eleição presidencial nos EUA, na qual o comércio mundial e o impacto do país asiático sobre a economia americana têm sido temas centrais.
Washington intensificou uma série de medidas comerciais restritivas sobre a China nos últimos meses, ao adotar elevadas tarifas antidumping sobre o aço importado, abrir novos processos na OMC e pressionar em favor da resistência às exigências da China de receber tratamento de economia de mercado no âmbito das normas da OMC. O processo movido ontem é o 14º protocolado pelos EUA contra a China durante o mandato de Obama. É, ao mesmo tempo, o primeiro de grandes proporções aberto contra Pequim em nome do poderoso setor exportador de grãos americano.
"Quando trabalhadores, empresas e agricultores americanos tentam concorrer lealmente na economia mundial, ganhamos. E quando outros países burlam as regras para tentar solapar os trabalhadores e agricultores americanos, fazemos com que respondam por isso", disse Obama ontem.
Mas, diante de uma China em ascensão que negocia seus próprios acordos comerciais na Ásia, essa reação não é suficiente, disse Obama, em sua defesa da TPP, assinada por seu governo com o Japão e dez outros países poucos meses atrás. "Com a evolução da nossa economia mundial, temos que garantir que os EUA desempenhem um papel destacado no estabelecimento dos padrões mais elevados a serem seguidos pelo restante do mundo", disse o presidente. "É disso que trata a TPP."
A investida de Obama para obter aprovação do Congresso à TPP enfrenta grandes obstáculos, como a oposição tanto de Donald Trump quanto de Hillary Clinton, os dois candidatos que disputam a sua sucessão. Mas o governo espera que, com o apoio dos dirigentes republicanos no Congresso, juntamente com o dos poderosos lobbies empresariais e agrícolas, consiga conquistar os votos necessários para garantir a ratificação do acordo após a eleição presidencial, marcada para 8 de novembro.
O fator fundamental para esse esforço será o respaldo dos membros do Congresso que representam Estados agrícolas, alguns dos quais estavam presentes ao anúncio de ontem sobre a abertura do novo processo junto à OMC.
A denúncia é voltada contra uma soma que, segundo Washington, totaliza quase US$ 100 bilhões em subsídios ilegais fornecidos por Pequim a agricultores por meio da fixação de preços mínimos inflados para o arroz, o trigo e o milho, praticados em suas compras de grãos durante a temporada de colheita.
Esses subsídios "de fato", argumentam os EUA, violam os compromissos assumidos pela China ao se filiar à OMC, em 2001. Resultam, além disso, em superprodução e comprometem a capacidade dos agricultores americanos de competir tanto na China quanto em âmbito mundial.
Os EUA lideram as exportações de produtos agrícolas, e suas vendas do setor à China superaram US$ 20 bilhões em 2015. (Tradução de Rachel Warszawski)
Fonte: Valor Econômico/Shawn Donnan