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Excesso de oferta global derruba preços do trigo

A colheita do trigo no Rio Grande do Sul chegou ao fim com resultados considerados excelentes do ponto de vista agronômico. A combinação entre clima favorável e bom manejo garantiu alta produtividade e qualidade do cereal, consolidando uma das melhores safras dos últimos anos. Conforme a Emater, a produção estadual é estimada em 3,4 milhões de toneladas, com rendimento médio em torno de três mil quilos por hectare.


Apesar do bom desempenho no campo, o cenário econômico não acompanhou o resultado das lavouras. A baixa liquidez e a queda nos preços pagos ao produtor têm gerado preocupação no setor. Na última semana, a saca de trigo era negociada entre R$ 53 e R$ 58, valores bem abaixo da média registrada no mesmo período do ano passado, quando os preços giravam em torno de R$ 65.


Segundo o operador de mercado e produtor rural Jairo Faccio, com mais de 40 anos de atuação no setor, a dificuldade enfrentada pelos produtores brasileiros está diretamente ligada ao contexto internacional. “Nós, de fato, temos uma boa safra, mas a gente está convivendo com o mercado mundial com sobra de trigo”, afirma.


Pressão internacional

De acordo com Faccio, o mercado global vive um momento de excesso de oferta, especialmente em países estratégicos para o comércio do cereal. A Argentina colheu a maior safra de sua história, enquanto Rússia e Ucrânia seguem exercendo forte pressão sobre os preços internacionais. “A Argentina teve uma safra próxima de 27 milhões de toneladas. Para fazer frente à pressão do trigo russo e ucraniano, por questões financeiras, eles tiveram que descontar preço. Saímos de trigo a 260, 280, 300 dólares para cerca de 200 dólares”, explica.


Esse movimento, segundo ele, colocou os países do Mercosul em uma disputa direta, impactando o valor do trigo brasileiro. “Vamos conviver com preços entre 215 e 230 dólares nos navios aqui da região. Vale para Uruguai, Paraguai e Argentina. O nosso trigo até tem um prêmio por proteína, de até 15 dólares, mas mesmo assim seguimos dependentes do câmbio.”


Preço mínimo distante da realidade do mercado

Outro ponto destacado pelo especialista é a distância entre o preço mínimo de garantia, fixado em R$ 87,77 por saca, e os valores praticados no mercado. Ele explica que o mercado está pagando entre R$ 52,00 e R$ 60,00. E vai seguir assim. Se não houver mudança cambial, os produtores vão conviver em 2026 com preços se arrastando na casa dos R$ 60 a saca, segundo a sua análise.


Mesmo com uma produção elevada, o consumo interno brasileiro não absorve todo o volume colhido no Estado. “O consumo máximo é de 1,8 milhão. Já temos cerca de 300 mil toneladas chegando importadas por preço. Então sobra trigo, e precisamos exportar”, destaca.


Exportação garante liquidez, mas com prejuízo

A alternativa encontrada pelo setor tem sido a exportação, embora em condições desfavoráveis. “Seguimos exportando por liquidez. Liquidez tem, mas é preço de ração. Em 45 anos trabalhando com trigo, nunca vi nada igual”, lamenta.


Segundo Faccio, a situação afeta de forma desigual as regiões produtoras. Enquanto áreas tradicionais como Lagoa Vermelha e Vacaria conseguem algum resultado positivo, outras enfrentam prejuízos. “Essas regiões colheram qualidade melhor e produtividade próxima de 4,5 toneladas por hectare, com margem em torno de 10%. Mas Missões, Noroeste e Fronteira Oeste têm resultado negativo.”


Intervenção do governo é considerada insuficiente

O anúncio do governo federal, por meio da Conab, de R$ 67 milhões para a compra de trigo, também é alvo de críticas. Para o produtor, além de o recurso ser limitado, a medida chega tarde. “Isso dá cerca de 30 mil toneladas. Só que 70% da safra já foi vendida. Esse dinheiro não resolve e ainda cria confusão entre produtores e cooperativas”, avalia.


Ele compara a situação a uma tentativa simbólica de socorro em meio a uma crise generalizada. “É como ter uma vaga para 180 mil pacientes. Vai continuar todo mundo no prejuízo”.


Logística

Faccio ainda destaca que o Brasil, mesmo sendo grande produtor, segue dependente da importação de trigo, enquanto exporta parte da produção por falta de competitividade logística. “O Brasil importa de 6 a 8 milhões de toneladas por ano. Nós aqui temos que exportar porque não conseguimos acessar os grandes centros consumidores. O frete de Passo Fundo até Rio Grande é o dobro do frete de um porto argentino até o Sudeste.”


Para ele, o problema é estrutural e exige políticas agrícolas mais eficientes. “Falta política agrícola justa, intervenção na hora certa, compra e troca. Não temos estoque público e somos obrigados a vender a preço ruim.”


Mesmo diante do cenário adverso, o produtor afirma que seguirá apostando no trigo, ainda que com redução de área em algumas regiões, onde a canola tende a ganhar espaço. “O trigo, sozinho, não dá lucro hoje. Mas dentro do sistema, ele dá resultado. Ele deixa palhada, cerca de 10 toneladas por hectare. Não dá para olhar só a cultura, tem que olhar o sistema produtivo”, conclui.


Fonte: O Nacional


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