Os preços do trigo, há muito tempo pouco remuneradores para os triticultores, deverão passar um patamar melhor para quem cultiva o cereal. O cenário mais animador é consequência de circunstâncias internacionais e também locais.
A guerra entre Ucrânia e Rússia colaborou para aumentos como, por exemplo, o de 5% na Bolsa de Chicago na quarta-feira, 15, enquanto no Brasil haverá um encolhimento significativo da oferta do grão neste ano em função da área menor destinada ao cereal e pela previsão de clima adverso (visto o El Niño), que vai, inclusive, comprometer a qualidade do grão.
Segundo o analista de Safras & Mercado Elcio Bento, o mercado de trigo já vive atualmente a escassez de oferta gerada pela safra anterior.
“Neste momento tem muito pouco trigo disponível tanto no Paraná quanto no Rio Grande do Sul, que são os grandes produtores. Então, com pouco trigo disponível, só não tem uma recuperação mais expressiva das cotações porque há um mercado de farinha também bastante lento neste momento”, descreve Bento.
“É uma situação nova para a realidade atual do Rio Grande do Sul. Um ano muito complicado, de escassez de oferta e a necessidade de importação alta será a realidade para essa temporada 2026/27 no Rio Grande do Sul e no Brasil como um todo.”
Bento esclarece que, além da “situação de aperto” para a oferta do ciclo anterior, a consultoria Safras & Mercado estima uma redução de 20% da área plantada nesta nova safra.
“O potencial de produção que estamos trabalhando até agora, em termos nacionais, recuaria dos 8,12 milhões de toneladas (safra 2025/26) para 5,85 milhões de toneladas, uma queda de 28%, só para ter uma ideia”, descreve.
“Sobretudo no Rio Grande do Sul, onde há um consumo interno de cerca de 3,5 milhões de toneladas e, neste ano, uma produção estimada, mesmo sem considerar perdas relacionadas, na linha de 2,4 milhões de toneladas”, complementa.
“Isso fará com que o Estado gaúcho, pela primeira vez nos últimos quatro anos, deixe de ser um exportador líquido, ou seja, o que for exportar terá que importar novamente.”
O analista acrescenta que com uma produção estimada até agora abaixo de 6 milhões de toneladas, é certa a escassez de oferta.
“Certamente a maior dependência de importação que o Brasil já teve em sua história, ao redor dos 8 milhões a 9 milhões de toneladas”, adverte. “Só para ter uma ideia, o consumo brasileiro é de mais de 13 milhões, quase 14 milhões de toneladas”, lembra.
“Além disso, tem a questão climática que pode trazer prejuízos em termos qualitativos para a safra brasileira. Nesse caso, teríamos um trigo que não poderia ser utilizado para farinha, teria que ser exportado como ração, e aumentaria ainda mais essa necessidade de compra para trigos de boa qualidade”, argumenta.
Conflito Rússia x Ucrânia
Bento ainda menciona que no mercado internacional tem ocorrido a recuperação dos preços em função de safra menor no contexto global e ainda pelas incertezas na região do Mar de Azov, na Rússia, o que provoca incerteza quanto ao fornecimento e escoamento do trigo russo. Ainda segundo Safras & Mercado, “as preocupações com a oferta global também foram reforçadas pelos riscos de novos ataques à infraestrutura de exportação na região do Mar Negro.
Segundo comentários internacionais, mais de 100 navios russos foram atingidos por drones ucranianos nos últimos nove dias, ampliando as incertezas sobre o fluxo de embarques da Rússia.” E a Ucrânia, que responde por cerca de 6% das exportações mundiais do grão, perdeu cerca de um terço de sua capacidade de exportação de grãos pelos portos do Mar Negro após a intensificação dos ataques russos à infraestrutura portuária, acrescenta a consultoria.
Trigo Brasil (Conab)
……………..Área (ha)….Prod..(kg/ha)..Prod. (mi t)
Safra 2025.. 2.445,9…..3.219……….7,873,4
Safra 2026...2.036,7…..2.959……….6,025,9
2025/26…….-16,7%….-8,1%………..-23,5%
Fonte: Correio do Povo