Os preços do trigo continuam em níveis historicamente baixos, no entanto, um dos principais pontos de atenção no curto prazo, segundo o consultor de mercado Pablo Maluenda, é a reunião prevista para a próxima semana entre os presidentes Donald Trump, dos EUA, e o chinês Xi Jinping. Caso os dois países cheguem a um acordo que restabeleça as compras chinesas de soja e milho dos Estados Unidos, os preços desses grãos podem voltar a subir com força e, em consequência, influenciar também os preços do trigo, que tendem a acompanhar esse movimento.
Até lá, no entanto, a tendência é de que os preços do cereal se mantenham baixos, seguindo a cotação de grãos. “Com os preços tão baixos de milho e soja, é impossível que a cotação do trigo cresça significativamente”, explicou Maluenda.
Com esse cenário, compradores vêm adquirindo volumes apenas para suprir suas necessidades de curto prazo, postergando decisões de compras maiores à espera de maior previsibilidade nos preços.
Além disso, a desvalorização do dólar em relação a outras moedas em meio às políticas tarifárias americanas também mexe com o mercado. Essa movimentação, segundo o consultor, é parte da estratégia da atual administração americana para tornar as exportações dos EUA mais competitivas. No entanto, essa medida pressiona produtores e exportadores de outros países, agravando os impactos da queda dos preços internacionais.
Oferta mundial
Outro fator é a abundância de trigo na safra atual. A União Europeia, após anos de queda desde 2014/15, retomou a recuperação e deve alcançar 140 milhões de toneladas, o maior volume dos últimos seis anos. A Rússia, que tinha expectativa de redução, deve colher 88 milhões de toneladas. Os Estados Unidos também vêm mostrando melhora na produção, e o Canadá pode atingir 40 milhões de toneladas, o que representaria a melhor exportação da história do país.
Na América do Sul, a Argentina deve produzir entre 22 e 23 milhões de toneladas, segundo estimativas das entidades locais, e de 22,5 milhões de toneladas, segundo o consultor, com exportações previstas em 15 milhões e estoques finais de cerca de 4,5 milhões de toneladas.
Tanto a Rússia quanto a Argentina estão sob pressão para ampliar exportações. No caso russo, há suspeitas de que a China esteja realizando compras estratégicas para apoiar o país, enquanto o governo de Vladimir Putin pode intensificar os embarques como forma de financiamento da guerra em curso com a Ucrânia. Com isso, há possibilidade de recuo nos preços do trigo russo.
Considerando apenas os oito maiores exportadores de trigo, a relação estoque/uso está entre 29% e 31%, segundo Maluenda. Sem considerar a China, os estoques estão firmes em torno de 21%. Mesmo os estoques finais globais, que preocupam parte do mercado, não indicam um problema imediato, de acordo com o consultor. A exceção fica por conta da China, onde há uma redução proporcional mais acentuada na relação entre estoques e consumo.
Redução da área
Durante o Congresso Internacional da Indústria do Trigo, realizado no Rio de Janeiro, Maluenda apontou que, embora os estoques estejam em níveis relativamente confortáveis, o cenário para 2026 ainda é de incertezas, com destaque para os impactos do clima, da geopolítica e das decisões dos grandes produtores.
Segundo ele, “a solução para preços baixos são os próprios preços baixos”, ou seja, com margens apertadas, a tendência é de redução na produção. De acordo com Maluenda, nos Estados Unidos, produtores de soja estão migrando para o milho. Na Rússia, agricultores de trigo estão abandonando a cultura em favor de oleaginosas. O Brasil também já observa migração para alternativas como a canola.
“Vamos ter um grande problema no próximo ano se o clima não ajudar. Se temos uma redução de área e o clima não acompanha, podemos ter uma alta de preços muito forte”, alertou.
Fonte: Globo Rural