A produção industrial brasileira cresceu menos de um terço do observado na média
da indústria global, no terceiro trimestre de 2025, segundo estudo do Instituto de
Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), feito com base em dados da
Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido, na sigla
em inglês) e antecipado ao Valor.
No levantamento, a atividade industrial no país cresceu 0,2% no trimestre encerrado
em setembro de 2025, ante o segundo trimestre do ano passado. No mesmo
período comparativo, a indústria global manufatureira mostrou alta de 0,7%, na
produção. Ante mesmo trimestre de ano anterior, o quadro foi pior. Enquanto a
indústria global mostrou alta de 3,9%, a indústria no Brasil teve queda de 0,6% na
produção.
O fraco desempenho fez com que o Brasil caísse cinco posições, na passagem do
segundo para o terceiro trimestre, no ranking global de atividade industrial do Iedi.
Na listagem, feita com informações de 80 países, o Brasil caiu para 65ª posição. Na
comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, o tombo foi pior: queda de 44
posições no terceiro trimestre do ano passado.
Juros altos por período prolongado de tempo foram a razão para a performance
ruim até setembro do ano passado, afirmou Rafael Cagnin, diretor-executivo do Iedi.
Atualmente a Selic, taxa básica de juros que norteia juros de mercado, opera a 15%
ao ano, maior patamar desde 2006 e está nesse nível há seis meses. O juro elevado
diminui o ritmo industrial em duas frentes, disse Cagnin. Reduz o consumo interno
via crédito, o que afeta negativamente encomendas à indústria. Por outro lado,
notou, deixa mais caro, para o industrial, o capital de giro via financiamentos
necessário à indústria, para compra de maquinário e consequente modernização.
Cagnin explicou que, mesmo com perspectiva de corte na Selic em 2026, não
acredita em grande retomada da indústria neste ano. “Um corte [da Selic] só teria
efeito [na economia real] no fim do ano”, explicou. Ele lembrou que cortes na taxa
básica de juros têm efeito defasado no mercado, de seis a oito meses.
No estudo, o especialista comentou que o tombo da atividade industrial brasileira foi
expressivo o suficiente para influenciar a média da produção industrial latinoamericana. No terceiro trimestre de 2025, a América Latina mostrou recuo de 0,6% ante o segundo trimestre. Na comparação com o terceiro trimestre de 2024, o recuo foi de 0,1%, na produção industrial latino-americana.
Outro aspecto que ajuda a explicar o menor ritmo de avanço industrial, ante a média
mundial, tem a ver com o fator estrutural, acrescentou o economista.
De acordo com ele, a indústria manufatureira global tem cerca de 45% de estrutura
industrial focada em ramos de alta e média-alta tecnologias. São aqueles
impulsionados por automação, digitalização, inteligência artificial e tecnologias
“descarbonizantes” - como placas solares. Esses têm apresentado maior demanda
nos últimos anos. Isso ajuda a explicar a média global industrial, com saldo positivo,
até terceiro trimestre, notou.
No Brasil, essa fatia estrutural não chega a 30% da indústria de transformação. Isso
porque setores de alta e média-alta tecnologia, além de mais dinâmicos
globalmente, são mais dependentes de juros por serem muito impulsionados via
crédito. Significa que em ambiente de juros altos investir em tais campos torna-se
mais caro do que em outros países.
Assim, tendo em vista fatores conjunturais, como juros altos, e estruturais da
indústria, o especialista comentou ser “muito provável” que o Brasil continue na
“segunda metade do ranking global”, no quarto trimestre de 2025.
Esse ritmo mais fraco da indústria pode prosseguir este ano, reiterou. Isso porque,
segundo ele, as atuais condições que derrubaram a produção industrial brasileira
devem continuar a operar na maior parte de 2026.
Para a retomada sustentável e de longo prazo na indústria, Cagnin defendeu
algumas mudanças no quadro macroeconômico, especialmente nas taxas de juros
que são, no entendimento dele, “sistematicamente altas”.
Entre as recomendações, está incorporar a reforma tributária, simplificando
impostos, para a cadeia industrial. Outras linhas de ações defendidas foram redução
de custos de energia à indústria e alocação de investimentos na formação de
cadeias produtivas de tecnologias descarbonizantes.
Também para 2026, o técnico disse ainda esperar alguma acomodação na produção da indústria mundial. Isso porque o mundo opera com grau elevado de incertezas devido à nova condução da geopolítica global pelo presidente americano Donald Trump. Ambientes assim, disse, não estimulam novos investimentos por parte da indústria global.
Fonte: Valor Econômico