São Paulo, 03/03/2017 - Vários fatores levam o setor ligado ao trigo no Estado de São Paulo a crer que tanto área quanto produção do cereal devem ser ampliados no próximo plantio, que começa em meados de abril. Conforme o presidente da Câmara Setorial do Trigo no Estado, Mauricio Ghiraldelli, São Paulo já vem expandindo há pelo menos três anos a área do cereal de inverno. "De 2013 para cá o Estado teve um incremento de mais de 200% no volume produzido", comentou ao Broadcast Agro. "A produção paulista alcançou 270 mil toneladas na última safra, para uma área estimada entre 75 mil e 80 mil hectares."
Nesta quarta-feira, dia 8 de março, a Câmara se reúne justamente para delinear, entre outros assuntos, as perspectivas do próximo ciclo. Que são, na visão de Ghiraldelli, bastante otimistas. Ele comenta que, ao contrário do Rio Grande do Sul, que está na dependência de leilões do governo para escoar seus estoques, produtores paulistas já praticamente venderam tudo à indústria. "São Paulo foi uma exceção na comercialização nesta safra", comentou.
Além do aumento da qualidade do cereal ao longo desses anos, Ghiraldelli lembra que a formação da Câmara contribuiu bastante para interligar a cadeia produtiva paulista, da produção ao consumidor final, o que facilitou o escoamento. Agora, a favor de um possível aumento de plantio do cereal este ano há vários fatores. O principal deles é o fato de o trigo da Argentina, bastante importado pelos moinhos brasileiros, ter subido de preço, mesmo com a safra maior no país - que deve alcançar 16 milhões de toneladas, segundo Ghiraldelli - e mesmo com estoques globais amplos.
"Havia uma expectativa de queda de preço na Argentina, que não ocorreu", diz o presidente da Câmara Setorial. "A safra ali cresceu cerca de 50% este ano ante os últimos três a quatro anos, com o fim das taxas de exportação. Isso fez com que os produtores argentinos investissem na cultura." O que de fato favoreceu o país do Mercosul a vender o cereal a preços melhores, entretanto, foi a valorização do rublo na Rússia, que tornou a commodity do país euroasiático menos atraente para importadores, em função da paridade com o dólar. "Desde dezembro até agora a Argentina aproveitou esta janela e exportou muito trigo. A consequência desta maior demanda foi a alta nos preços, de cerca de 17% de dezembro para cá, tornando o cereal argentino menos atraente para os moinhos brasileiros." Assim, Ghiraldelli comenta que o grão paulista, que tem ganhado em qualidade, pode se sobressair para a indústria local. "E o ICMS é um custo direto para quem compra."
Um terceiro fator a pesar a favor do aumento do plantio é o preço do milho, que caiu bastante nos últimos meses, em função da previsão de safra de verão e safrinha recordes do cereal. "Se a colheita recorde de milho se efetivar no País pode ser que na safra de inverno o produtor paulista opte pelo trigo em vez do milho", diz Ghiraldelli. "Há, enfim, boas perspectivas e inclusive na reunião da Câmara Setorial vamos apresentar novas cultivares que produzem um trigo de qualidade para a indústria."
Comercialização
Conforme relatório semanal do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a demanda por farinha de trigo aumentou no encerramento de fevereiro, mas os preços não reagiram. "Alguns agentes de indústrias alimentícias e de setores de varejo adiantaram as compras de farinha, devido ao recesso de carnaval e também à consequente dificuldade de encontrar caminhões disponíveis para entrega nesse período. Além disso, o consumo de produtos finais também teria se aquecido, fazendo com que a indústria aumentasse as compras de farinha", diz o Cepea.
Assim, na média da semana de 20 a 24 de fevereiro em comparação com a semana anterior, as farinhas para bolacha salgada se desvalorizaram 1,45%, as para massas em geral, 0,62%, e as para panificação, 0,39%. Já os preços das farinhas para bolacha doce e pré-mistura (cotadas em sacas de 25 kg) subiram 0,1%, e os da farinha para massas frescas mantiveram-se estáveis.
Os valores do farelo de trigo, por sua vez, apresentam comportamentos distintos entre as regiões acompanhadas pelo Cepea. No Rio Grande do Sul, a procura teve ligeira melhora, enquanto no Paraná moinhos tiveram dificuldades em vender o derivado, devido à boa safra de milho. Em São Paulo, apesar da maior procura, não há oferta suficiente. Na média das regiões acompanhadas pelo Cepea, na semana de 20 a 24 de fevereiro em comparação com a semana anterior, o farelo ensacado se desvalorizou 1,74%, mas o preço do a granel teve alta de 0,35%.
Para o trigo em grão, a comercialização está bem devagar. Moinhos brasileiros continuam relativamente abastecidos, pelo menos até o final de março, com algumas unidades apenas recebendo o cereal já comprado e/ou importado. Assim, as negociações têm ocorrido de forma pontual e regionalizada.
Na semana de 17 a 24 de fevereiro, no mercado de balcão (preço pago ao produtor), os preços tiveram ligeiro aumento de 0,1% no Rio Grande do Sul e queda de 0,2% no Paraná. No mercado disponível (negociações entre empresas), houve alta de 0,4% no Rio Grande do Sul e de 0,3% no Paraná e em São Paulo, conforme o centro de estudos.
Fonte: Agência Estado