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Análise: Agronegócio demonstra preocupação com fenômeno El Niño

A meteorologia prevê um El Niño de forte intensidade para os próximos meses, com probabilidade próxima de 100% de ocorrência. Projeções do mercado apontam para um impacto direto na safra de grãos 2026/2027 no Brasil, acendendo um sinal de alerta para o agronegócio nacional.


Dados reunidos pela Agência de Monitoramento da Atmosfera e Oceanos dos Estados Unidos, conhecida como NOAA, apontam para uma chance de 67% de aquecimento das águas do Pacífico em até 2 graus. Segundo análises, mesmo que atualizações futuras do relatório da NOAA indiquem um fenômeno menos intenso no Pacífico, as mudanças climáticas e o aquecimento global tendem a potencializar seus efeitos de qualquer forma.


Combinação de fatores adversos preocupa o setor

As informações servirão de base para um alerta do monitoramento do agro do Bradesco. A expectativa é de um balanço da safra de grãos 2026/2027 mais apertado, com preços mais elevados do que nas safras anteriores.


Os últimos episódios de El Niño de forte intensidade mostram riscos para a qualidade do trigo no Brasil, para a produção de milho segunda safra e perda de produtividade de soja no Matopiba — região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Em contrapartida, Estados Unidos e Argentina tendem a registrar safras de milho e soja mais positivas.


O fenômeno climático se junta a uma combinação de fatores já adversos para o setor: alta nos custos de produção, juros elevados que puxaram a inadimplência e consequente aumento nos pedidos de recuperação judicial.


O diretor da FDC Agroambiental e ex-presidente da Abag, Marcello Brito, resumiu o cenário de forma contundente: "As estrelas do mal estão todas alinhadas para a produção agrícola brasileira." Segundo ele, o ano começou com inadimplência alta, juros altos, aumento de custos e queda de preços. A isso se somou o conflito no Oriente Médio, que provocou aumento expressivo nos preços dos fertilizantes e ameaça de escassez do insumo para a próxima safra.

Congresso busca renegociação de dívidas do agro

Em Brasília, a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) tenta aprovar um projeto de lei oriundo da Câmara dos Deputados que trata da renegociação de dívidas do setor. O analista de Política da CNN Caio Junqueira informou que o relator da proposta no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), deve reunir senadores e representantes do Ministério da Fazenda, uma vez que há divergências.


Enquanto o Ministério da Fazenda tenta restringir o alcance do projeto, o Senado e a bancada ruralista buscam ampliar as condições da renegociação. Apenas a bancada do Rio Grande do Sul ligada ao agronegócio apresentou entre 30 e 40 emendas ao projeto.


O diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, destacou que o projeto pode ser votado na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) em breve. Originalmente voltado à renegociação de dívidas de produtores do Rio Grande do Sul, o texto acabou se estendendo além das fronteiras gaúchas, podendo afetar dívidas no valor total de quase um trilhão e meio de reais.


As condições previstas pelo relatório de Renan Calheiros incluem taxas de juros entre 3,5% e 7,5%, com 10 anos de prazo e 3 anos de carência — condições consideradas bastante facilitadas.


Distorções econômicas e risco de choque de preços

A âncora e analista de Economia da CNN Thais Herédia alertou que o ambiente para uma nova redução da taxa de juros pelo Banco Central está se deteriorando. Para ela, o governo atua na direção contrária à política monetária ao turbinar o crédito direcionado com juros menores: "Só tem um dinheiro na economia. Qualquer dinheiro na praça que está pagando menos, alguém está pagando a diferença."


Segundo ela, quem paga essa diferença é o Tesouro Nacional e quem está fora do crédito direcionado, já que a política monetária precisa dobrar o peso sobre esses agentes para ter o mesmo efeito esperado.


Thais Herédia concluiu que o período entre meados de 2026 e o início de 2027 é preocupante para o comportamento dos preços e para a manutenção da taxa de juros em patamar elevado, diante de um potencial choque de oferta agrícola e de energia.


Gestão e planejamento como gargalos estruturais

Marcello Brito apontou que, além dos fatores externos, há um gargalo estrutural frequentemente ignorado: a deficiência de gestão e planejamento do setor. "O agronegócio brasileiro é um show dentro da porteira, mas a gestão e o planejamento do setor continuam muito fracos", afirmou.


Ele lembrou que eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul já eram mapeados há mais de 15 ou 20 anos, sem que houvesse planejamento adequado ou estruturação efetiva do seguro rural.


Brito também alertou que safras sucessivamente grandes podem depreciar os preços, e que apenas fatores como o El Niño e o conflito no Oriente Médio têm evitado uma queda ainda maior das cotações. Para ele, urge a profissionalização e o planejamento de um setor de tamanha relevância para a economia brasileira.


Setor elétrico também em alerta

Daniel Rittner ampliou o escopo da preocupação ao mencionar que o fenômeno climático também preocupa o setor de energia elétrica. Ele lembrou os episódios de 2023, 2024 e 2025 na região metropolitana de São Paulo e alertou que, com El Niño, chuvas e ventanias mais intensas podem provocar blackouts de diferentes proporções em todo o país, colocando em xeque a resiliência das redes de energia.


Fonte: CNN


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