Uma mudança nas lavouras paranaenses pode redesenhar parte do abastecimento de trigo da indústria brasileira nos próximos anos. Com produtores direcionando áreas para culturas consideradas mais rentáveis, os moinhos do Estado poderão precisar buscar no exterior entre 1,5 milhão e 1,7 milhão de toneladas do cereal em 2027. Do outro lado da fronteira, o Paraguai surge como candidato natural a ocupar parte desse espaço.
A proximidade geográfica, entretanto, não significa necessariamente trigo barato para chegar aos moinhos. Operadores estimam em quase US$ 20 por tonelada os custos operacionais de travessia entre Paraguai e Brasil. Reduzir essa conta tornou-se uma das prioridades da indústria, que discute com autoridades dos dois países simplificações nos procedimentos aduaneiros e melhorias na operação logística.
O assunto esteve no centro do Giro Abitrigo – Paraguai, realizado de 1º a 3 de setembro. Mais de 45 representantes de moinhos e outros segmentos da cadeia percorreram estruturas logísticas e áreas produtoras nos dois países. A programação incluiu o Terminal Multilog, no Brasil, e a Algesa, no Paraguai, além de lavouras, cooperativa e campos experimentais.
“Estamos falando de quase 20 dólares por tonelada em custos operacionais de travessia. Trata-se de um valor expressivo dentro da precificação do mercado internacional do trigo”, afirma Eduardo Assêncio, superintendente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). Segundo ele, ganhos operacionais na fronteira poderiam estimular imediatamente o comércio bilateral.
Oferta mais perto dos moinhos
A busca por alternativas ocorre diante de uma transformação na produção paranaense. Segundo a indústria, culturas de maior valor agregado vêm disputando espaço com o trigo cultivado na safrinha. Se a necessidade projetada de importação se confirmar, a localização do Paraguai pode favorecer o atendimento aos moinhos do Paraná e também de São Paulo.
O país vizinho, por sua vez, procura ampliar a oferta. A cadeia paraguaia investe em melhoramento genético e tecnologias para adequar a produção às especificações demandadas pela indústria brasileira. A meta anunciada pelo setor é recuperar o patamar de 600 mil hectares cultivados com trigo.
“Estamos trabalhando para retomar o patamar de 600 mil hectares de área cultivada com trigo no Paraguai”, afirma José Berea, presidente da Cámara Paraguaya de Exportadores y Comercializadores de Cereales y Oleaginosas (Capeco).
Não é apenas a distância que interessa aos compradores. A composição e a força de glúten do trigo paraguaio permitem que o cereal seja utilizado como melhorador de farinha, complementando a matéria-prima processada pelos moinhos paranaenses e paulistas.
A integração, contudo, depende de resolver problemas que vão além da burocracia. André Vosnika, diretor de Originação e Financeiro da S.A. Moageira & Agrícola Irati, observa que a experiência na fronteira permitiu identificar limitações logísticas e questões que exigem alinhamento entre os dois países.
O cenário coloca produção agrícola, indústria e infraestrutura na mesma equação. Se o Paraná realmente ampliar sua dependência de trigo importado e o Paraguai recuperar área produtiva, a eficiência da fronteira poderá definir quanto dessa complementaridade se transformará efetivamente em comércio. Nesse caso, alguns quilômetros de distância podem importar menos que os dólares gastos para atravessá-los.
Fonte: AgroRevenda