Com a chegada do inverno, produtores de trigo no Sul do Brasil voltam a enfrentar um dos principais fatores de risco da cultura: a geada. Associada à queda acentuada de temperatura, o fenômeno não afeta apenas o desenvolvimento das plantas, mas também a qualidade tecnológica dos grãos, com impacto em indicadores como peso hectolítrico e rendimento industrial.
A preocupação se intensifica em um contexto de safra estimada em 6,38 milhões de toneladas em 2026, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com redução da área cultivada para cerca de 2,14 milhões de hectares. Com margens mais estreitas e maior exposição a riscos climáticos, decisões de manejo ganham peso direto sobre a rentabilidade.
O engenheiro agrônomo e especialista em fitossanidade Gustavo Rubim avalia que a geada segue entre os principais riscos da cultura no país, especialmente pela capacidade de comprometer lavouras em estágios críticos de desenvolvimento. “A preparação para enfrentar eventos de frio intenso exige planejamento antecipado e manejo criterioso da lavoura. Mesmo em um inverno sob influência do El Niño, o produtor não deve descuidar do risco de geadas, sendo fundamental adotar estratégias de manejo bem definidas para reduzir possíveis impactos sobre o desenvolvimento e a produtividade das plantas”, afirmou.
Segundo ele, o frio extremo raramente atua de forma isolada. Excesso de umidade, maior pressão de doenças e limitações operacionais também fazem parte do cenário típico do inverno no Sul. “Por isso, manejo de solo, nutrição, sanidade, biológicos e monitoramento climático devem atuar de forma integrada. Aliados à escolha adequada da época de semeadura e de cultivares adaptadas à região, esses fatores ajudam a reduzir os riscos de que estágios críticos da cultura coincidam com períodos de maior ocorrência de geadas”, mencionou.
Os efeitos variam conforme o estágio fenológico. Na fase vegetativa, os danos tendem a ser reversíveis, com queima foliar e redução temporária do crescimento. Já no período reprodutivo – espigamento, florescimento e enchimento de grãos – o impacto pode ser mais severo, com esterilidade de espiguetas, falhas de formação e perda de produtividade e qualidade.
Nesse contexto, fertilizantes foliares e bioestimulantes têm sido incorporados ao manejo como ferramentas de suporte fisiológico. Nutrientes como potássio, cálcio, magnésio e micronutrientes ajudam na manutenção da estrutura celular, enquanto aminoácidos e extratos vegetais contribuem para a resposta ao estresse térmico.
Os bioestimulantes também atuam na ativação de mecanismos naturais de defesa, com aumento da atividade antioxidante e redução de danos celulares, além de acelerar processos de recuperação após eventos de frio intenso.
Rubim destaca que essas tecnologias não substituem estratégias agronômicas estruturais, como escolha de cultivar e definição da época de semeadura, mas funcionam de forma complementar no manejo de risco. “Não é possível controlar o clima, mas contribuir para que a planta esteja mais equilibrada nutricionalmente antes do evento e tenha melhores condições de recuperação”, afirmou.
Os insumos biológicos também ganham espaço dentro do manejo integrado. Inoculantes e microrganismos promotores de crescimento podem contribuir para o desenvolvimento radicular, eficiência no uso de nutrientes e maior estabilidade fisiológica das plantas.
O impacto econômico das geadas depende da intensidade e do estágio da lavoura, mas pode ser significativo quando ocorre em fases reprodutivas. Por isso, o foco do manejo está na construção de sistemas mais resilientes, combinando nutrição, biológicos e monitoramento climático ao longo do ciclo.
Mesmo em anos sob influência do El Niño, quando há maior nebulosidade e redução na frequência de massas de ar polar, episódios de geada ainda ocorrem. Nesse contexto, o planejamento passa a ser determinante para reduzir perdas e preservar produtividade.
Como reduzir riscos de perdas por geada no trigo
• Planejar a semeadura conforme o zoneamento agrícola
• Evitar coincidência entre espigamento/floração e períodos de geada tardia
• Escalonar o plantio e usar cultivares de ciclos distintos
• Garantir equilíbrio nutricional e desenvolvimento radicular adequado
• Integrar biológicos ao manejo, sem uso isolado
• Monitorar a lavoura após eventos de geada
• Integrar manejo climático, nutricional e sanitário ao longo do ciclo
Fonte: O Presente Rural