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Paraná terá de buscar fora do Estado quase metade do trigo necessário para abastecer seus moinhos

O Paraná deverá atravessar a safra 2026/27 com uma das maiores dependências externas de trigo de sua história. A produção estadual projetada em 2,2 milhões de toneladas será insuficiente para atender a moagem dos moinhos paranaenses, estimada em 3,85 milhões de toneladas por ano pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). A diferença chega a aproximadamente 1,65 milhão de toneladas, volume equivalente a cerca de 43% da necessidade anual da indústria.


O problema ganha dimensão maior porque o Paraná concentra o maior parque moageiro do país e responde por cerca de 30% da produção brasileira de farinha. Com menos trigo disponível dentro do Estado, os moinhos terão de disputar matéria-prima no mercado externo justamente em um ciclo de oferta internacional mais apertada e custos elevados.

A indústria chega a esse período com margens já pressionadas. O trigo valorizou no primeiro semestre, mas a farinha não acompanhou a mesma velocidade, dificultando o repasse dos custos para os compradores. Ao mesmo tempo, o farelo de trigo, um dos principais coprodutos da moagem, perdeu força no mercado e reduziu outra fonte de receita dos moinhos.


Para Paloma Venturelli, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR), a combinação de fatores reduz a capacidade de absorção de novos custos pela indústria. “A subida do preço do grão sem o correspondente repasse para a farinha comprime as margens e afeta diretamente a rentabilidade dos moinhos. Some-se a isso o enfraquecimento do mercado de farelo de trigo, um dos principais coprodutos da moagem”, afirma, acrescentando: “É um momento que exige do setor atenção redobrada e medidas que preservem a competitividade e a eficiência operacional, sem abrir mão da qualidade”.


Menos área, menor produtividade

A insuficiência paranaense não é um fenômeno isolado. A oferta brasileira também encolheu ao longo das revisões das estimativas de safra. A projeção nacional, que no início do ano apontava produção de 7,2 milhões de toneladas, foi reduzida para 5,9 milhões.

Entre os fatores estão o menor estímulo ao plantio, problemas climáticos no Cerrado e perdas já consolidadas em lavouras de Minas Gerais e Goiás. Com menos trigo produzido no país, a necessidade de recorrer ao mercado externo aumenta.


No Paraná, principal produtor brasileiro, a redução é ainda mais expressiva. A área cultivada deverá ficar em 740 mil hectares, 13,5% abaixo dos 855 mil hectares registrados no ciclo anterior.


Além da redução da área, a expectativa é de queda de 9,5% na produtividade média. O menor investimento tecnológico, associado ao aumento dos custos de insumos importados, especialmente fertilizantes nitrogenados como a ureia, reduz o potencial produtivo das lavouras.


O resultado projetado é uma produção 21% inferior à da safra anterior, quando o Estado colheu 2,8 milhões de toneladas. A conta coloca os moinhos diante de uma necessidade adicional de aproximadamente 1,6 milhão de toneladas para completar o abastecimento anual.


Brasil aumenta dependência do mercado externo

A menor produção doméstica ocorre em um momento em que o Brasil já depende estruturalmente de importações para complementar o consumo de trigo. Com a revisão das estimativas, a expectativa é que as compras externas se aproximem de 9 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica brasileira.


A Argentina deve continuar como principal alternativa para os moinhos brasileiros. A proximidade geográfica reduz custos logísticos, e o comércio dentro do Mercosul facilita o fluxo do cereal. O problema está na qualidade disponível.

A safra argentina que atualmente abastece o mercado brasileiro até novembro apresenta menor teor de proteína e de glúten úmido. A característica está associada, entre outros fatores, ao menor uso de fertilizantes nitrogenados nas lavouras argentinas.


Para a indústria, a questão é relevante porque o trigo utilizado na moagem não é uma commodity homogênea. O desempenho do cereal depende de atributos como força de glúten, teor de proteína e qualidade tecnológica, que determinam sua adequação para diferentes tipos de farinha e produtos de panificação.


A próxima safra argentina pode aliviar a pressão sobre a quantidade. A estimativa é de produção próxima de 20 milhões de toneladas. Se o volume se confirmar, haverá matéria-prima suficiente para atender uma parcela importante da demanda regional. A dúvida está na qualidade do cereal que será colhido.


Trigo de qualidade custa mais

A alternativa é diversificar as origens, mas isso tem impacto direto sobre o custo. O trigo dos Estados Unidos, por exemplo, chega ao mercado brasileiro cerca de R$ 300 mais caro por tonelada em relação ao produto argentino.


A diferença ocorre em um momento de oferta americana mais restrita. Segundo a série histórica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção norte-americana está diante da menor safra desde 1970, enquanto o saldo exportável é o menor desde 1960.

A região do Mar Negro também apresenta riscos adicionais. O agravamento dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, incluindo ataques a embarcações de carga no Mar de Azov e no Mar Negro, aumentou os custos de frete e seguro marítimo. Para o comprador brasileiro, isso encarece uma origem que poderia ser utilizada para diversificar o abastecimento.


O Paraguai, outro fornecedor tradicional do Paraná, tampouco deverá compensar integralmente a redução. O país estima saldo exportável de no máximo 350 mil toneladas, contra 600 mil toneladas no ciclo anterior.


A consequência é uma disputa mais acirrada por trigo no mercado internacional, sobretudo pelos lotes com características adequadas à indústria moageira.


Câmbio ajuda, mas não neutraliza pressão

O câmbio é uma das poucas variáveis que atuam parcialmente na direção contrária. Com o dólar próximo de R$ 5, a conversão para a moeda brasileira reduz parte do impacto de uma cotação internacional mais elevada.


Esse benefício, porém, não foi suficiente para neutralizar a alta do cereal no exterior. A valorização internacional do trigo tem superado o alívio proporcionado pelo câmbio, fazendo com que o custo de importação permaneça superior ao observado em períodos anteriores.


Para os moinhos paranaenses, o problema deixa de ser apenas encontrar trigo para completar a necessidade anual. É preciso encontrar volume suficiente, com qualidade compatível com cada aplicação industrial e dentro de uma estrutura de custos que já está pressionada.


A combinação de menor produção no Paraná, redução da oferta brasileira e restrições em fornecedores tradicionais aumenta a importância das decisões de compra ao longo da safra. Para uma indústria que precisa moer 3,85 milhões de toneladas por ano, a diferença de 1,65 milhão de toneladas entre a produção estadual e a demanda dos moinhos terá de ser coberta por outras origens, em um mercado no qual quantidade, qualidade e preço estarão simultaneamente sob pressão.


Fonte: O Presente Rural


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